Flores de Cunhã

A cor azul povoa o imaginário de diversas sociedades contemporâneas – seja como “cor de menino” (sic), seja como a “cor do mar”, do céu (embora saibamos que não é bem assim). Mas e no nosso prato (e xícaras, copos, taças), quantos azuis podemos encontrar? Essa cor é reconhecida por sua raridade na natureza, e pesquisadores verificaram que muitas sociedades antigas sequer a identificavam, já que não a encontravam facilmente. Havia menções ao verde, vermelho, amarelo e muitas nuances, mas nada de azul.

Ainda hoje, ao vermos algum alimento e bebida azul, salta aos olhos curiosidade e inquietação: afinal, é natural? Dentre algumas (poucas) espécies botânicas realmente azuis, uma em especial tem despertado o mundo da gastronomia e das bebidas (chefs, tea blenders, bartenders e mixologistas em geral): a flor de Cunhã, Clitoria ternatea. A Clitoria ternatea possui forte coloração azul-arroxeada e através de alguns métodos é possível extrair dela um pigmento intenso para bebidas e alimentos. A Clitoria ternatea é uma leguminosa herbácea e trepadeira. Trata-se de uma planta alimentícia não convencional (PANC – assunto de muitas postagens por aqui daqui em diante) e todas as suas partes são comestíveis ou servem para fazer preparados: flores, folhas, vagens e até raízes – estas últimas para fins exclusivamente medicinais. O que pouco se fala é que, além de brindar uma cor exuberante, a Clitoria é riquíssima em antocianinas – substancia fundamental para o pigmento de diversas plantas de cores como rosa, roxo, vinho, violeta. A palavra antocianina vem do grego e significa literalmente “flor azul”. Esta substância tem um efeito antioxidante para o organismo humano, auxiliando no combate aos radicais livres do organismo, o que a torna uma aliada da saúde e da estética. Assim, a flor de Cunhã possui inúmeros benefícios sobre o organismo comprovados pela ciência ocidental e outros experimentados pelo saber tradicional há séculos, como no Ayurveda (chamada de Aparajita).



Originária do sudeste asiático (Tailândia, Indonésia, Malásia, Índia), a Clitoria faz parte de um repertório gastronômico e medicinal centenário nessas culturas. Na Tailândia, ela é chamada de Dok Ancham e uma bebida popular local é o Nam Dok Ancham, espécie de xarope feito com a infusão da flor, mel, xarope simples e limão. Também fazem por lá o Chaw Muang, um tipo de “bolinho” (dumpling) macio cor lilás e em formato de rosa (colorido com a infusão da Clitoria!) tradicionalmente recheado com alguma carne, mas que também pode ser doce.

Na Indonésia e na Malásia a flor é chamada de Bunga Telang, e a sua infusão com capim limão é uma bebida popular no primeiro país; enquanto no segundo um tradicional prato é o Nasi Kerabu Kelantan, cujo componente mais chamativo é um arroz herbal feito com a infusão da Clitoria ternatea.

Há não muito tempo as infusões azuis vem ganhando os olhos e corações do mundo ocidental, principalmente com o elevado fluxo de divulgação de bebidas e pratos azuis através do Instagram. Por aqui, desejo que possamos colorir cada vez mais nossas xícaras, taças, copos e pratos com cores naturais, e que este espaço virtual sirva para despertar a curiosidade pela origem daquilo que está à nossa mesa.

Saúde! <3

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