Ouro Brasileiro

Nosso País é muito rico, esse é um fato que não da pra negar sob quaisquer circunstâncias. As vezes só correlacionamos as riquezas com o dinheiro e suas variáveis, quando na verdade essa é apenas uma forma figurativa de representar a verdadeira riqueza de uma cultura. Nosso País é enorme, se comparado a muitos dos outros, nossa biodiversidade é gigantesca, possuímos inúmeras fontes de água potável e grandes valores regionais que devem ser considerados.

Mas o objetivo desse post é destacar apenas um, a nossa maior riqueza dentro da coquetelaria que, infelizmente, até hoje, não lhe damos o devido valor. A Cachaça!

Cachaça no Exterior

Antes de qualquer coisa, observe a imagem a baixo…

Essa imagem foi enviada por um dos meus alunos durante uma viagem dele à Europa, esse é o valor que um produto como a 51 tem lá fora, € 15,35 na cotação atual do Euro hoje dariam R$ 67,38. Ainda, na mesma imagem, compare com o Havana Club na prateleira de cima, que está custando € 16,29, que na cotação atual custaria R$ 71,51. Porque estou fazendo essa comparação? te convido a fazer uma pesquisa rápida no Google pelos dois produtos para ver os preços aqui no País, a Cahaça 51 “Tipo Exportação” custa em média R$ 35,00, enquanto o Rum Havana Club custa em média R$ 64,70.

Mas Gustavo, você odeia a 51? não! não odeio nada, só que a minha opinião com relação a Cachaça tem mudado muito nos últimos meses e, pra mim, inúmeros outros produtos deveriam ter seu reconhecimento lá fora da mesma forma e, na real, não entendo porque não tem, (você sabe? me explica aqui nos comentários) visto que existem políticas muito vantajosas pra produtores e indústrias que querem vender pro exterior.

É claro que outras marcas já estão sendo exportadas, eu sei disso, ok? inclusive trago alguns dados elaborados pelo IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça) tendo como fonte dados do Ministério da Economia (Dados de 2018).

Note nesses dois demonstrativos acima que o estado de Minas Gerais que é o maior produtor nacional de Cachaça de Alambique sequer aparece em destaque e que São Paulo, que é o maior produtor de Cachaça de Coluna se apresenta em destaque como exportador. (Logo abaixo explico a diferença entre os dois tipos de Cachaça)

Nesses próximos demonstrativos, conseguimos analisar os principais destinos da exportação da nossa Cachaça, observe:

Nesses gráficos é possível perceber que ainda há um grande caminho pra expandir nosso tesouro para o mundo, em relação ao valor, temos uma média de US$ 1,85 por litro, é um absurdo, concordam? (Voltem lá em cima e vejam o valor que é comercializado)

Cachaça de Alambique x Cachaça de Coluna

Você já parou pra se perguntar o porquê da grande diferença entre os sabores e aromas das Cachaças que você experimenta? a diferença no equipamento utilizado na produção vai te ajudar a entender!

Destilador de Coluna

Fonte: Aquivo de Internet | Destilador de Coluna em Inox de uma Grande Indústria

O Destilador de Coluna que é utilizado nas grandes indústrias de Cachaça (aquelas que produzem em grande escala pra suprir a grande demanda) é o mesmo processo que é utilizado pelas indústrias de combustível pra automóveis, esse equipamento tem como único objetivo a produção em alta escada e grande velocidade. Tal processo de produção não separa o coração da Cachaça da cabeça e da calda, então o resultado é um destilado muito mais alcoólico e sem personalidade (que as indústrias tentam mascarar adicionando açúcar na composição, o que já descaracteriza o resultado como Cachaça!¹). Além disso, pra tornar o processo ainda mais rápido, são utilizados diversos químicos na etapa de fermentação.

Alambique

No alambique, o processo de produção é praticamente o oposto, a produção é muito menor (enquanto os de coluna produzem milhares de litros por mês, no alambique é produzido milhares de litro por ano). Outra grande diferenciação, é a separação do coração da cabeça e da calda (essas últimas duas partes são descartadas do procedimento principal e reutilizados em outros processos do alambique. Já vi alguns onde essas partes são transferidas para um destilador de coluna e convertidos em combustível para os próprios veículos da fazenda, uma ótima ideia, e completamente sustentável)

Fonte: Fábrica de Alambiques Santa Efigênia | Alambique de Cobre

Os diferenciais não acabam por aí, acredito que um dos maiores destaques que podemos citar quando comparamos os dois meios de produção é o envelhecimento da Cachaça. Enquanto no destilador de coluna o processo precisa ser rápido, nos alambiques o tempo é um grande aliado da qualidade.

Tipos de madeira utilizados no envelhecimento

Bem, eu conheço, até hoje, 27 tipos de madeiras que são possíveis de utilizar no envelhecimento da nossa Cachaça, mas como não sou especialista, provavelmente existem muitos mais..

  • Amarelo-Cetim
  • Amburana
  • Amendoim
  • Angelim-Araroba
  • Angico
  • Ariribá
  • Bálsamo
  • Carvalho Americano
  • Carvalho Europeu
  • Castanheira
  • Cedro
  • Feijó
  • Grápia
  • Ipê
  • Ipê-Amarelo
  • Itaúba
  • Jaca
  • Jatobá
  • Jequitibá
  • Jequitibá-Rosa
  • Louco-Canela
  • Pau Brasil
  • Pereira
  • Peroba
  • Sassafrás
  • Tapinhoã
  • Vinhático

Sabe o que é incrível? em cada uma dessas madeiras habita uma Cachaça completamente diferente da outra. Durante o processo de envelhecimento a Cachaça troca com a madeira diversas propriedades e se desenvolve em um produto completamente distinto. Alguns fatores influenciam no envelhecimento, são eles:

  • Tempo: Cada madeira tem um período mínimo e máximo de armazenamento que deve ser respeitado para a completa troca de informações entre madeira e destilado.
  • Tamanho do Barril: Parece óbvio mas não é, quando menor o barril maior a área de contato do destilado com o barril, o que aumenta a eficiência da troca e, consequentemente, o sabor e aroma de madeira na Cachaça (se comparado com o mesmo destilado envelhecido na mesma madeira pelo mesmo tempo)
  • Espessura do Barril: Quando mais grosso for a madeira utilizada pra fazer o barril, maior será a coloração que a Cachaça irá obter no envelhecimento. Porém, essa maior espessura também influenciará no nível de sabor e aroma da cachaça, visto que o destilado demorará mais para trocar informações com todo o corpo da madeira.

Expo cachaça 2019

Nesse ultimo final de semana, tive o prazer de ir no maior evento voltado para consumo e propagação da cultura da Cachaça no Brasil, o Expo cachaça que aconteceu em Belo Horizonte dos dias 06 a 09 de Junho. Estive presente no dia 08, no sábado e quero destacar algumas descobertas que me deixaram muito entusiasmados e, claro, algumas cachaças que adorei experimentar! (hehehe)

Descobertas

Você sabia que atualmente existem mais de 30 mil produtores de Cachaça no Brasil? dessa quantidade, aproximadamente 98% são de micro e pequenos empresários. A Cachaça hoje é responsável por gerar mais de 600 mil empregos (diretos e indiretos) e movimenta R$ 7,5 bilhões de reais por ano em toda sua cadeia produtiva. Outro dado que me chamou a atenção foi a média de consumo de Cachaça anual por habitante no País, 11,5 Litros. (só no Expo cachaça eu passei da média..) Também descobri uma nova possibilidade de envelhecimento da Cachaça, na madeira de Jaqueira que atualmente apenas 3 alambiques utilizam em todo o País que E, por ultimo, acho que o que mais me impactou, voltando a falar de exportação, nos exportamos apenas 1% da nossa produção anual! (UM FUCKING POR CENTO!)

Destaques de Cachaça

Bom, em meio a um mar de Cachaça é até difícil fazer destaque a alguns rótulos de algumas marcas, mas vamos lá né..

  • Cachaça Envelhecida em Jaqueira e Bálsamo (Alambique Princesa Isabel): Essa Cachaça me tirou até o folego no evento, além do atendimento excepcional do Fernando que é o gerente, e da amizade que fiz com o dono Pedro Henrique, eu sequer consigo descrever as sensações que essa degustação me trouxe. Sabor, Aroma, Retrogosto. Tudo incrível. Uma cachaça extremamente macia e fácil de beber. Conseguiu, inclusive, mudar minha madeira favorita que era Amburana. Conheça o Alambique Princesa Isabel.
  • Cachaça Envelhecida em Amburana (Alambique Giuseppe): Essa é de escorrer até lagrima do olho, viu? em primeiro lugar também destaco o excelente atendimento dos irmãos a frente do alambique, em especial ao Lucas Nesi que havia feito contato comigo e conduziu a apresentação do produto. Bom, logo que cheguei me contaram uma história fascinante de como começaram a produzir Cachaça, sobre como transformaram uma coisa exclusivamente de família em um negócio com produção de mais de 40 mil litros/ano. Ao experimentar a Cachaça de Amburana vi de cara a paixão com que tanto falavam, uma Cachaça envelhecida por 6 meses em barril pequeno com um sabor bem característico e aroma bem marcante, extremamente fácil de beber e com retrogosto bastante cativante. (Uma coisa que me deixou MUITO feliz foi uma mensagem pessoal do Lucas após a feira dizendo que haviam ganhado uma Medalha de Prata na categoria de Madeiras Brasileiras!) Conheça a Cachaça Giuseppe.
  • Cachaça Século XVIII (Engenho Boa Vista): Essa é outra que tem história, estava no Bar Lamparina bebendo com o Thiago Cecotti (@bartendingnotes), quando encontramos o Paulo (@paulosagarana), o Pedro Henrique (do Alambique Princesa Isabel) e umas outras pessoas que sequer lembro o nome. E começou rodar uma Cachaça Século XVIII de 2007, que havia sido leiloada e a pessoa que arrematou não foi buscar. (Mais de R$ 500 pela garrafa!) um gringo comprou e levou pro bar e começamos a beber (no outro dia descobri que o Pedro que pagou pra todo mundo beber..) a parada é de outro mundo, fabricada de forma extremamente artesanal, em pouquíssimas quantidades, da mesma forma há 7 gerações. Da pra beber uma garrafa fácil, viu?

Bom, chega de escrever por hora, mas esse assunto ainda ta longe de terminar por aqui, viu?
Me conta o que achou da publicação nos comentários!

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